domingo, 28 de fevereiro de 2010

exemplo de império

mãe

para cada coisa que se olha tem
pedra no caminho
presta atenção [então] na coisa de olhar a pedra
do próprio caminho

quando a pedra escorre na ribanceira
e não se é a pedra é alívio é ainda bem
a pedra que escorre é a chance [de uma
outra maneira] de continuar ali no monte
e não lá em baixo caído e morto e dor

preste atenção ainda
pois a memória faz
fantasma e paraíso.
o precioso espaço
entre cilada mistério
e propriamente
o medo
está na capacidade de um e outro verem na lembrança o papo
feito [há] muitos anos.

cada conta de buteco
ou conversa ou destempero
do bêbado [espécie em extinção]
não existe mais
agora só é hora de balada.

meninas novas velhas por aqui e por ali
são outras contas de tempero que o pai
coloca na comida na salada na vida da
mãe que se esqueceu de como era no começo.

história de PESSOAS que escrevem na VIDA

o rapazote especial da maneira urgente
épico
instrumental de geladeira e porta com imãs
e escudeiro de boa vida para amar a cabeça
em pensamento e osteoporose porque menino
vai ter como todos devem ter em princípio
para a pedra que marca onde a gente deve
saber qualquer coisa.

pedra é prazer que não se corta com tesoura
porque tesoura é para papel este assinala o
poema cartaz de muitas histórias onde a
fatalidade promíscua supera parcerias
modernas presentes – especiarias turcas.

casado com passadeira de roupa e mulher
feito homem que ganha a vida carregando
e mandando ver nas coisas dos outros
pedreiro é gente faz parede ambiente
feito parede de ambiente de casal
chamado de construtor ou também maçom
o cara que vende espetinho na esquina
tem sempre uma cachacinha por perto
para fazer o gatinho embebedado parte
da história

quem em meio a tantas histórias não
significa a postura de gente que marca
na história o seu próprio jeito de fazer
aquilo ou este aqui que é a história de
contar esta história de gente que ama
faz comida e persiste contra toda
maré até iemanjá ou contrariando
os ifás.

é a primeira vez que se conta esta história
destes três personagens que em meio as torturas
da vida se foram ou foram levados a crerem que
a vida de um jeito ou de outro terá jeito.

o homem que constrói espera a possibilidade de
fazer parede em qualquer lugar sendo perto longe
em chão duro ou enlamaçado que alcança na presença
de um santo ou santa a esperança sempre acesa na
cantiga que faz de tristeza bonança.
esse homem que constrói faz casa de qualquer um
faz também moradia de meninos e homens que fizeram
maldades para ele em quando ele criança e não se
esquece da maneira perversa com que foi tratado
e lembra até hoje do retrato tirado de cabeça
para baixo preso na árvore que segurava seus
pés corpo garganta e grito.
seu brado esquivou-se da pedrada dada pelo moleque
filho do dono da terra que seu pai – morto – morreu
de tanto levar para casa as marcas do sol e do ardor
da chibata branca que fez dele um tipo novo de escravo
que trabalha mói capina usa facão faz farinha
e nada disso importou ao dono e filho que era menino
e fez gracejo com ele dependurado cabeça abaixo
e sangue que não corria no seu corpo magro
de tanto trabalho e pouca comida.
mas não é só parede que ele levanta é também
fundações e estas devem servir ou servem para
preparar o que vai encima e encima vai tudo
que não a fundação pois cada coisa serve a
um propósito mesmo que não seja o seu.


pequeno comentário acerca do SEU
[Então se não é seu é de quem?]
exatamente de quem não está lá.
fim do pequeno comentário do SEU

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Quem sou eu

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37 anos, poeta, designer gráfico, moro em goiânia, gosto de escrever e produzir uma escrita preocupada com as coisas que acontecem ao nosso redor, (pelo menos ao meu redor) nesse tempo ou em outros.